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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Início


Meu longboard se chama Lucy.
Eu me chamo, geralmente, Henrique.
Algumas marcas a gente consegue esconder. Outras só se pode tentar.
Uma onda me marcou certa vez. Na verdade, muitas ondas, muitas vezes. Mas essa não era uma vaca, não era uma drop mal feito. Eram segundos que se tornavam minuto embaixo d´água. Minuto que mata.
Morrer embaixo d´água é um troço bonito. De verdade. Ou, pelo menos, quase morrer. Tudo dança em câmera lenta, em silêncio. Ninguém grita embaixo d´água. Silêncio. Não deixa de ser desperador. Dói muito. O peito aperta,mas depois de um tempo os musculos param de se contrairem sob um relaxamento estranho. Voce esta sozinho, perdido no perigo. Nao e azul...pelo menos nas aguas do Brasil. Mas ha uma cor breve na imensidao do oceano fechando a redoma de vidro da sua vida.
"Rema, rema, rema..."
Vento forte.
Corredor de valas imensas abrindo de um lado... e pedras do outro. E ali, bem no meio, sentado na prancha, deu para perceber a série vindo. Cinco, seis ondas.
Onde eu estaria se não tivesse ido surfar naquele dia? Talvez em casa vendo o History Channel. É, provavelmente.
A primeira onda não me derrubou porque remei para cima. Não dava para sair dela ou tomaria na cabeça. Não dava para puxar para os lados porque já estava quebrando muito. E as pedras... bem, pedras, né.
Quase na vertical, a onda passou e quase caio quicando do outro lado. Já a segunda, não dava mais tempo.
Buuuuuum.
Na cabeça.
Cinco, dez, quinze, vinte, trinta segundos dentro da máquina de lavar roupa salgada. Senti o longboard já longe e me puxando quando subi à superfície. Mas não era para Lucy que eu queria olhar naquela hora.
Cabeça para fora d´água, busquei enxergar a segunda onda. Ela estava no máximo a dez remadas.
Mas remar para quê?
Soltei o corpo, não dava mesmo tempo para remar e passar a onda. Muito menos para puxar Lucy e tentar me agarrar a ela. Inspirei fundo. Respirei. Segurei o ar de novo e mergulhei.
Quando a segunda onda passou eu já estava embaixo d´água. Mas a força do repuxo foi forte. E antes que eu conseguisse descer fundo o suficiente, fui arrastado para trás.
Procurei não ficar muito nervoso para não perder muito o ar. Quando parei de ser levado para trás, ainda embaixo d´água, comecei a subir para a superfície. Poucos segundos e já podia ver a água brilhante com o sol escaldante lá fora. Sereno. Passivo. "Tudo ao contrário", pensei. Quer dizer, acho que pensei. Não na hora. Só depois. Não dá para saber. Mas estava tudo ao contrário. Geralmente só se fala da contemplação do fundo do mar calmo, azul e pacífico enquanto o mundo lá fora explode em guerras, gritos e tombos. Ali embaixo, querendo voltar a respirar, ouvindo e sentindo o arrasto da onda fazendo bolhas abaixo da superfície, que irônico, era exatamente o oposto.
Subi para respirar.
Por 30 centésimos de segundo.
Boca e metade do queixo fora d´água, senti o pulmão abrindo, arregaçando num fôlego e susto só.
Eu havia esquecido de um detalhe: a cordinha.
Nalgum ponto distante, meu longboard, minha prancha, minha Lucy era arrastada com mais força e aquele cordão umbilical preso, realidade, ao meu tornozelo, me puxou com toda força para baixo d´água.
Puta que pariu.
Não deu tempo para respirar e senti medo.
Quente e entediado, o medo deslizava pela minha garganta como uma pedra enrolada num pano áspero socado goela abaixo,
Meu peito doeu. O tórax doeu com a falta de ar. Comprimiu. Eu sabia que a terceira onda da série já estava prestes a passar por cima da minha cabeça. E eu ainda era arrastado de um lado a outro. Duas ondas sem respirar. Eu não agüentaria.
A terceira onda me jogou para baixo.
Se antes me segurei para não soltar a cordinha pensando que Lucy poderia se arrebentar nas pedras, pois batia uma corrente nordeste forte na direção das rochas logo além do canal formado pela rebentação, desta vez eu não o fiz porque simplesmente não conseguiria. Não tinha forças.
Ali, a dor começou a passar. O desespero foi derretendo, tudo foi ficando calmo. Eu não sabia se era uma calmaria boa. Na verdade, era ruim. E eu sabia. Entre tantas vezes abrindo e fechando os olhos sem respirar, algumas manchas ficaram mais tempo presentes na minha visão.
Engraçado quando depois de um tempo, você nem pensa mais na falta de ar. Por um instante, não era em respirar novamente que eu pensava. Era naquela escuridão, cegueira momentânea. Eu estava de olhos fechados ou abertos? Nem sabia mais.
O corpo amoleceu.
Pensei em algumas pessoas. Minha vida sem Miss Sayão. Minha vida com Miss Sayão. Mais pessoas.
Que merda.
Acho que apaguei por dois segundos. Ou foram duas horas.
A calma passou instantaneamente depois disto. Dor. Muita dor. Morrer sem ar... dói. Uma faca trespassava pelas minhas costelas. Me debati. Não sei de onde veio a força. Mas veio de uma vez só. E  era só por mais uma vez.
Bati perna tentando subir pela última vez, senti a água salgada entrando pelo esôfago, eu abria a boca como quem achasse que miraculosamente respiraria embaixo d´água. Parecia um último esforço de quem não tem mais o que tentar, então tenta o que sabe que não funciona. O que não deveria.
A água ficou mais clara, era a superfície. Coloque a mão para cima. Era isto mesmo. Ar. Estava fora da água. Me empurrei contra a correnteza e consegui tirar também parte da cabeça.
Respirei com tanta força, o ar entrou queimando tão forte que quase doeu tanto quanto a força do mesmo. Eu engolia brasas de ar.
Soltei um barulho bestial com a inspiração, momentos depois senti a água que havia engolido voltando à boca no refluxo, escorrendo pelas narinas. Respirei de novo.
Olhei para todos os lados. Vi Lucy boiando ao longe. Mas minha visão ainda estava muito turva. Era ela mesma?
Virei a cabeça. A série ainda não tinha acabado.
Dava pra acreditar?
Olhei para cima. Só vi duas nuvens. Lembro bem dessas duas nuvens. Acho que pedi a ajuda às nuvens, não a Deus.
Havia pelo menos mais duas ondas vindo. Grandes, cheias, volumosas, parrudas, formando desde lá dentro.
Por um segundo pensei sinceramente que seria melhor morrer duma vez ao ter de passar por aquela dor de novo. Não tinha forças.
Boiei. Descaradamente. Deitei e rezei para que até que a próxima onda me alcançasse, eu estivesse chegado perto dela o suficiente para não ser aremessado para o mundo inferior novamente.
Tentei bater um pouco de perna, acho que foi o suficiente. Mal o suficiente.
Mas não bastaria para a última. E não bastou. Precisei mergulhar. Sem força, na verdade, aquilo sequer foi um mergulho.
Acabou?
Acabou.
Mais uma série abria no horizonte, ondas menores, mas vinham fortes, espumando para quebrar bem ali  na minha zona de conforto. Eu precisava sair dali.
Comecei a puxar a cordinha ainda boiando. Senti quando ela ficou próxima. Algumas ondas menores passaram por mim, mas voltaram a quebrar a nordeste, nas pedras. A sorte de estar tão longe da praia e, por isto, não ter sido arrastado para as rochas, agora era o meu azar de precisar voltar tanto.
Lucy chegou. Pobre Lucy.
Subi aliviado por ser um lonbgoarder. A flutuação me deixou bater mais perna e começar a remar aos poucos sendo levado para fora da quebradeira. Ali, deitado, bastou pender um pouco a cabeça mais para trás para conferir a série chegando mais perto,e depois voltar a cabeça para frente para sentir o sangue grosso escorrendo pelo nariz. Pingos grossos por toda a parte. Minhas gengivas também estava sangrando. Cuspi e vi a mancha vermelha flutuando ao meu redor.
Remei. Zonzo. Vendo tudo escuro. Sangrando. Mas remei. O cansaço do braço sumira. Tudo sumira.
Notei o salva-vidas lá na areia começando a pular e me chamando para fora.
Que escroto. Como se eu não soubesse. Mais tarde descobriria que ele estava esperando a série para poder entrar, ou então não conseguiria e só acabaria preso na arrebentação. Aí sim, seria o fim para mim.
Não engoli muito bem essa, mas era verdade.
Quando a série me alcançou eu já estava podendo levar mais três, quatro ondas na cabeça. Sorri. Dali, só me sobravam as pedras.
Sangue, sorriso. Não consegui segurar Lucy no braço.

Saí do mar, deitei na areia. Fiquei inerte. Imerso naquela oceano inteiro agora dentro de mim. Carregado aqui no peito. Acho que nunca me senti tão próximo do mar. Ainda que não fizesse idéia do que stivesse realmente sentindo.
Desde então, senti uma perda de mim. O mar me deixou viver porque sabia que um dia eu voltaria para terminarmos essa historia que ficou pela metade entre nós dois.
Agora, todas as vezes em que entro no mar, pergunto e peço mais algum tempo. Peço licenca, perdão e agradeço.
Levo todas as histórias que vivi desde a última vez em que ele me deixou sair, relembro as antigas.
Algumas acabarão por aqui.
 Eu saio da BIC e as luzes do Pina, Boa Viagem, da cidade inteira nunca pareceram tão ofuscadas. 
Sabe quando você aperta os olhos devagar e as luzes vão borrando, escurecendo?

 










Drink The Water 

(Jack Johnson) 


Drink the water drink it down 
This time I know I'm bound 
To spit it back up 
I didn't want this 
Salty substitute, just not going to do 
I need some air, if I'm going to live through 
This experience reminds me of a clock 
That just won't tick 

I want to wake up 
From this concussion 
But my dream is just not done 
I'm late again, 
It's just one of those 
Bad days look outside and 
Be careful what you ride 
You just might find 
That you're out of time 
To swim ashore 
If I drift long enough 
I'll be home 

He's got delusions between his ears 
Man it takes up too much space 
And all that tension between his gears man 
He'll never ever leave this place 
He's got stones instead of bones 
And everybody knows 
That can make you real real slow 
And if heaven was below 
He'd know just where to go 
Dive in the ocean 
And he'd sink like a stone 
And he'd say 
It's time to swim ashore 
If I drift long enough 
I'll be home 

Hold on if you can 
You're gonna sink faster 
Than you can imagine so hold 
Hold on if you can 
You're gonna sink faster 
Than you can imagine so hold 

It's just time to swim ashore 
If I drift long enough 
I'll be home